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A Metafísica de Morrowind – Parte 2.1 – Recuperando os pedaços das escolhas do jogador

A-Metafisica-de-Morrowind--Parte-2.1

Voltando com a segunda parte da tradução da segunda parte (lol) de “The Metaphysics of Morrowind“, estudo feito por Kate “Kateri”, analisando como o universo de The Elder Scrolls: Morrowind interage com o universo real. Pois gamers também são filósofos (e vice-versa!).

AVISO: O texto a seguir já é complicado por natureza, até para conhecedores do universo Morrowind, é altamente recomendado ler a parte 1 e a parte 2 antes de continuar!

 

Finais múltiplos, realidades múltiplas – recuperando os pedaços das escolhas do jogador

Eu citei a primeira parte acima (ver parte 2), mas o que segue agora é a segunda parte de Onde Você Estava Quando O Dragão Quebrou? (Where Were you When The Dragon Broke?) por R’leyt-harhr o Khajiit:

“Daremos-lhe crédito: você quebrou Alkosh [= Akatosh], algo feroz, e isso não é fácil. Apenas não pense que desvendou o que conseguiu com isso, ou que sequer poderá desvendar. Você fez de novo com Big Walker, não uma vez, mas duas! Uma vez em Rimmen, onde nunca aprenderemos a conviver. A segunda em Daggerfall, ou foi em Sentinel, ou seria Wayrest, ou quem sabe em todos os lugares ao mesmo tempo?”

- R’leyt-harhr, Khajiit, Where Were you When The Dragon Broke?

Provavelmente seja mais impressionante em pessoa.

Faz parecer que essa Quebra do Dragão não foi uma ocorrência isolada. Para explicar a causa real do fenômeno precisaremos voltar um pouco, para o final de The Elder Scrolls II: Daggerfall. Ou, deveria dizer, finais. No clímax de Daggerfall, o jogador encara uma escolha: a quem dar o poder de controlar Numdium (“Anumidium”, “Big Walker”), o gigante, robô mágico pisoteador-de-mundos usado anteriormente pelo lendário Imperador Tiber Septim para conquistar Tamriel. Há sete possibilidades, e sete finais. Obviamente, isto deixou os escritores de Morrowind em um dilema – qual final é o canônico, e escrever nos livros de história de Tamriel? A resposta, a qual acabou sendo conhecida como “a Dobra no Oeste”, foi: todos eles.

O Lorde deve saber que os Blades concluíram que não há uma versão histórica plausível desses eventos, e temem que uma versão histórica plausível nunca será produzida. Os Blades concluíram que um ‘milagre’ ocorreu, até então os eventos são inexplicáveis, mas os Blades duvidam fortemente que o milagre foi de origem divina.”

- Ulvius Tero, Arquivista dos Blades, The Warp in the West

Parece que os historiadores de Tamriel estão tendo dificuldades novamente.

“Rei Eadwyre e sua rainha Barenziah estavam celebrando suas grandes vitórias quando cheguei. Até lá, eu tinha conseguido fatos rasos sobre o assunto, que simultaneamente teriam acontecido sete grandes batalhas em Iliac Bay, e ninguém conseguia descrevê-las, apenas seus resultados sangrentos.

Para resumir: em 9 de Frostfall, haveriam quarenta e quatro reinados, condados, baronados e ducados independentes cercando Iliac Bay, se um inclui os territórios não conquistados de Wrothgarian Mountains, Dragontail Mountains, High Rock Sea Coast, Ilha de Balfiera, e Alik’r Desert. Em 11 de Frostfall, haviam apenas quatro – Daggerfall, Sentinel, Wayrest, e Orsinium – e todos os pontos onde se encontraram estão em ruínas, os exércitos continuavam a batalhar.

Eu estava determinado a descobrir a verdade com o Rei, mesmo que eu tivesse que ser um diplomata não diplomático para tal.

Eadwyre, apesar de ser um tipo jovial, ficou agressivo, dizendo que não queria entregar segredos militares. A Rainha, sempre calma com seus ilegíveis olhos vermelhos, contou-me, ‘Nós não sabemos’. Eu creio que seja plausível assumir que Barenziah não me contou tudo, mas os fatos de sua história – que depois verifiquei em entrevistas em Daggerfall, Sentinel, e Orsinium – eram que eles haviam descoberto que uma certa poderosa arma antiga seria ativada. Eu não direi o nome dela aqui. Por medo que fosse usada contra Wayrest, o Rei teria tentado comprá-la do jovem aventureiro [ou seja, o jogador de Daggerfall - K.] que saberia o seu local. Eadwyre acreditava, como acabou sendo verdade, que outras forças em Bay também haveriam tentado ganhar o domínio desse dispositivo.

O que aconteceu, como Barenziah disse, ‘Nós não sabemos.’”

- Embaixador Lorde Naigon Strale, The Warp in the West

Este livro no jogo, The Warp in the West na verdade apareceu em The Elder Scrolls IV: Oblivion e não em Morrowind, mas como vimos na passagem de Where Were You…, o conceito já estava lá. Também podemos achar, no texto de autoria de um desenvolvedor da Bethesda conhecido como Skeleton Man’s Interview, postado quando Morrowind ainda estava em desenvolvimento: “E o quê do Warp in the West, onde dizem que seis Anumiduma foram vistos em seis diferentes locais ao mesmo tempo, cada um esculpindo um destino diferente dos mortais?”

Um destino diferente dos mortais… mas, que mortais seriam esses? Possivelmente, no contexto da passagem, deve se referir aos diversos líderes e cabeças de facção com quem o jogador poderia aliar-se no fim de Daggerfall, entretanto eu acho que há mais do que parece. O ES loremaster proweler escreve:

“É engraçado na verdade.

O conceito da Quebra do Dragão foi criado porque pessoas diferentes jogando Daggerfall podiam criar finais diferentes. A Quebra do Dragão não é nada mais que o resultado de diferentes entidades controlando os eventos para si mesmas. Pode ser observada em Dawn com múltiplos deuses andando pelo Mundus, com Warp in the West e seu Numida.

Ainda por algum motivo, o salto para conectar este conceito com o de muitas pessoas diferentes jogando Daggerfall nunca é notado.

Você nem precisa quebrar a quarta parede. A única maneira em que Mundus permite sete versões do Numidium existir é com uma Quebra de Dragão onde entidades diferentes controlam eventos no tempo de forma diferente. Logo, o misterioso agente de Daggerfall era um deus-andarilho.”

- proweler, Elder Scrolls Forums, 13 de Julho de 2010.

Deuses andando entre mortais é listado como um dos fenômenos reportados durante a Quebra do Dragão original, mas o que se quer dizer com “deus”, exatamente? Sabemos sobre quatro Quebras do Dragão na história de ES, e todas envolvem deuses, mas não necessariamente deuses da forma que a maioria das pessoas os imaginam. Duas Quebras estão ligadas a mortais que ascenderam ao nível de um deus: Vivec em Red Mountain, e Tiber Septim em Rimmen. E na Quebra de Daggerfall, como proweler disse, foram na verdade os jogadores quem tomaram os papéis de deuses, impondo suas vontades no tempo e espaço, decisões feitas em jogadas diferentes todas afetando o mundo do jogo ao mesmo tempo, ao menos até onde a história Tamrielica alcança.

Mas… não é isso o que jogadores fazem toda hora nos jogos? Impondo suas vontades no tempo e espaço, mudando eventos, recarregando o jogo quando as coisas vão mal, usando códigos de trapaça se uma batalha é muito difícil – seja como for, invencível e imortal. Por mais que jogos gostem de fingir que os jogadores são heróis fracos cercados por inimigos poderosos e terríveis, o jogador tem acesso à poderes que nenhum outro ser no jogo tem – o poder de transcender o mundo do jogo, de “trapacear”, e de escrever o passado e o futuro com savegames.

Mesmo assim, na série Elder Scrolls, isso não é inteiramente verdade. Existem, de fato, outros seres com poderes similares aos possuídos pelos jogadores, e acabamos de mencioná-los: Vivec e Tiber Septim, companheiros de Quebra de Dragão. Quebrar o Dragão fez com que Tiber Septim conquistasse Tamriel… como, exatamente? Foi como Warp in the West? Ele criou múltiplas realidades onde conquistou cada província separadamente, e então as juntou? Ou simplesmente ficou recarregando a realidade até que os eventos acontecessem como desejado? Eu perguntei no fórum de ES lore, e fui dita, “Ambos e um por causa do outro.” Você consegue esse tipo de resposta muito por lá.

E Vivec, ah, Vivec é algo diferente, mas ele tem a parte 3 toda para si, então ele pode esperar. Basta dizer que Vivec sabe tudo sobre jogar jogos – e ganhar.

Na parte 3: QUIMica Divina, ou: Como Vivec acessou o Kit de Construção.

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